quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

vênus e desventanias.

Levantei os olhos para Vênus, enquanto as mãos dentro da bolsa preta infinita, procuravam por fósforos. Encontravam óculos, balas e outros objetos insípidos. Me lembrei da náusea que sentia, no cheiro que morte me remetia, as portas e filas de hospitais e os bancos baldios de igrejas colossais. Mesmo que frequentemente não frequentasse, eu ainda assim gostava de templos, e desgostava do gosto do acelerado passar do tempo.
Há tempos que me entregava ao ócio. Oscilava entre prazer e culpa, toda minha falta.
Entre nós, além de centenas de centelhas e alguns muitos quilômetros, havia uma, entre cerca de mil chances.
E me agarrei a ela, com olhar flutuante no ar parado, como palmeiras imperiais estáticas às seis da tarde, no horário de verão, quando o céu em brasa na linha do horizonte ainda arde.
Não encontro fogo, mas também me faltam as velas e as ventanias pra ajudar o correr do barco.
Tudo se tornou surreal, desde antes do último Natal e promessas exotéricas indicam, que tudo irá se estabilizar depois do próximo carnaval.
Fantasio.
O Rei nu. A Rainha louca. A língua dele na minha boca. Toda sorte, nada pouca.
Bocejos lacrimejantes escorrem na madrugada de meia luz, enquanto as ruas da metrópole gemem sirenes e esquinas sufocam fartos prantos - sons bem distantes da infância vivida entre grilos, sapos e pirilampos.
- Alguém me descola um trampo, um baseado, um ar condicionado, um veneno, o endereço de um antro?
Me distraio com o não vento e faço das dele - das poucas horas possíveis, meu predileto passatempo. Lembro. E todo dia o busco.
Sempre chegava por volta das cinco, com um cigarro apagado no canto da boca e isso sim me deixava excitada, alucinada e com inspiração de louca. Coisa boa... Um querer bem, como no momento além dele, quase quero mais ninguém.
E apenas aguardava e sempre aguardava, suas palavras entrarem pelas frestas do meu corpo. Sempre exato e sob medida, para quem nunca mediu palavras, órgãos e feridas.
Guardava mágoas em exóticas caixas lacradas a vácuo, até o momento de soltar o grito: - "Eu te amo!"
Fato.
Nos dias em que sangrava, o meu grande martírio e prazer, era manter as mãos limpas e a mente suja. Me flagelavam então pequenas torturas, que brotavam intrusas na imaginação.

Era assim:
"Entre soldados, girassóis, e narguilês de ópio, lá estavámos nós dois, nus e refletidos pelo olhar, abismados por décadas de total desconhecimento, sem conseguir um ao outro alcançar, unidos e distantes, semelhantes, dormentes e entorpecidos, pela imposição do destino em nos impossibilitar de viver o tremor da carne além do encontro da alma, e saber do fundo dos olhos que nunca mentem. E era tão triste, mas também tão bonito esse amor a milésima vista, quando reconhecido e repousado sobre drusas de ametista..."
Desperto e reflito.
Talvez se em outros tempos, frequentássemos o mesmo hall de docentes, o mesmo caos de indecentes, o mal lavado lavabo de um bar de estudantes, talvez se não nos tivessem semeado nessa vida tão distantes...
Talvez, talvez, talvez... E se?
E se o telefone agora tocasse e fosse eu a lhe dizer sim, e sem limites e objeções ele simplesmente nos livrasse do não? E se ele me telefonasse de um número restrito e eu, por amor e instinto atendesse dizendo seu nome e isso, só isso nos livrasse de toda forma compartilhada de solidão?
Vivo uma terça morta com cara de domingo, então apenas me distraio com meu reflexo na televisão desligada, enquanto o imagino em um quarto desconhecido, folheando um livro sem atenção em nada.
Adentro a madrugada, plastificada de tanto calor, torpor roendo a memória de um tempo - e não faz assim tanto tempo, em que mesmo agindo de um jeito torto, eu sabia que eu me sentiria vazia, se ele um dia se fingisse de morto.
Finjo que suporto, esse cansaço de falta de abraço.
Mas ando atenta aos tentáculos que se estendem, eu navego discreta e sedenta pelas tentações que nos prendem, escrevo por metáforas explícitas, me expresso de forma ridícula, apenas para fazê-lo me ouvir nas destroçadas linhas, enquanto o improvável desejado não nos aborda e caminhamos cambaleantes sobre a bamba corda.

" A esperança equilibrista, sabe que o show de todo artista... blá, blá, blá, blááááá..."

Sete dias, cinco sonhos e três gozos, que sua voz escrita não me acorda.
Minha boca o vê, até onde sei que ele não existe . Minha língua o lê em tela cheia, onde o guardo com cuidado e deságuo aquecimentos que ninguém vê.
E se já passa da hora, são quatro gozos que seu sussurro escrito entre gemidos, não me toca.
Não o toco, não o troco.
Sigo a pé, sem trocados e trocadilhos, com um amor infantil e vulgar, que me lança sem freios sobre seus dias , sigo sob a sina de Vênus e embebida na água doce, que produz essa vontade quase mania de tê-lo em pelo.
Espero pouco. Seu retorno, seu contorno, notícias com cheiro de éter e qualquer palavra chula, abençoada palavra qualquer, que me alivie a insônia e a anorexia, que causa essa desventania e essa vontade de ser a alegria, que o embriaga em doses de colher.
E foi assim, meio sem fim, dona de mim e sem nenhum controle sobre mim, que eu quis e aprendi a ser mulher.
Com os olhos em Vênus, encontro os fósforos. Acendo um cigarro, duas velas por nós dois, dedico um poema escrito no ar e faço cena ventando, me exibindo pra ele e sonhando enfim ser feliz, nessa brincadeira de não era uma vez, que não deixo pra depois...
..

.



sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

tua crua



versos que te fiz
só calam-se com beijos.

desejos que te quis,
não cessam.

aprofundam-se,

veja bem meus olhos...
afundam. nos teus

cintilam latentes,
pupilas latejantes...

a chuva cai e me molho de vontade
da saudade que nunca mordi...
.
pecado pausado
é milagre pousado.

meu peito rasgado,
te oferta ninho.

meu sexo insaciado
teu abrigo.

se todo intro,
sou toda tua .

na verdade da minha pele nua,
me devore. crua.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

très romantique

nada distante quando se tem com a alma.
ele partiu em busca de asas. ela realizava sonhos astrais.
*
e desde aquele dia, passou a bordar as iniciais do nome dele.
por toda superfície da pele...
cada dia de uma cor diferente, para lembrar o amor em busca do sonho
e sobrepunha e ressaltava, a primeira e última.
letra. sangue. alma. amor.
tudo para que quando ele chegasse,
já estivesse tão cicatrizado bordado entranhado,
que talvez nenhum dos dois se espantassem,
se por acaso levitassem de tanto encanto,
dismitificando lendas e se libertando dos infernos ancestrais.
e então, e apenas,
anunciariam os sons de deuses,
florescendo harpas de uma ópera rock
ressoantes rasgantes das cordas vocais.

fósforos?


sabia do horizonte neste verão, desde a posição em que o ventilador de teto fazia brisa, até dentro do calor que insistia em derreter, a partir da dobra dos seios.
os fósforos chegaram ao fim e notícias de quem já esquecera, chegavam sem que pedisse.
em algum lugar de são paulo, sob placas, setas e faróis, ele desabita.
e seus fósforos também acabaram.
- é a tal da sincronicidade...
- é a porra da saudade...
na orla do rio, drummond em bronze e a língua lambe ao pé do ouvido.
- “e lambe, lambilonga, lambilenta...”
às vezes sentia medo da casa... não se reconhecia ali e tinha receio do cômodo vizinho e tinha também algum remorso, além de um grande amor por tudo isso.

me prestava a cobaia, em alguns dias cheios de nãos.
colecionava dias que não existiram, cuidadosamente colados nas suas páginas brancas.
mas em algum lugar, onde há redemoinho de poeira cósmica, algumas coisas eu não sei, conspiram e cantam vozes que dizem sim.
talvez.
o mundo é largo e voamos, porque senão a casa afunda.
sabia das noites, o acelerar horizontal de poucos carros e sabia da metereologia, lia descrente o horóscopo do dia, sabia da bruma e da garoa e de trens subterrâneos. e das horas, do recomeçar de todo dia e das preces e maldições, de caixas de fósforos vazias, dos abortos, dos abraços e de um sexto sentido e do mar morto, também sabia.
buscava afeto, torpor e trabalho. sem garantias.
em contrapartida, apenas a Poesia.


e depois dormia um sonho quase infantil, sentindo falta da nicotina

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

º

foge o pensamento, alado galopante em tranças de nuvens,
plana sobre as copas de um xeque mate.
possui asas quentes e ouro nos dentes.
pinta o meu corpo, com as palavras laváveis e improváveis
e impregna minha carne com outras loucas tatuadas.
pensamento quando gruda na pele de madrugada,
amanhece cor de fogo por toda a casa.
mas quando o pensamento volta de garoa gelado
e me abraça pelas costas com suas asas,
eu me rendo e navego azul
pela fumaça verde de nossos cigarros.
nus.

(prefiro amar como se não houvesse ontem...)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

então é natal...

papai noel não existe!
...
é dia de noite feliz!
tenho um incenso de macela,
um sonífero que me excita,
além de uma imensa vontade cor azul,
ainda me resta, minha eterna colcha de retalhos,
um lindo macho que faz relaxar
e um amor de meses pra eu esquecer.
há um natal a celebrar...
eu trago esse olhar perdido,
que penetra no túnel que resgata ausências.
ele passa flutuante por lembranças abandonadas,
e no vão entre a geladeira e o armário da cozinha,
eu soluço lúcida de saudade.
e se não fosse a presença de tantas ausências,
eu me sentiria completamente sozinha...

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

oh, noite feliz!


eu no reino do rei do poema luz

te ensaiava por entre sumos de limeiras e suores da madrugada
eu (es)calava os meus calafrios, desaguava no teu (a)mar meus rios
minhas tempestades e correntezas,
te inundava com minhas certezas indefesas...
apaziguava o meu peito em brasa
e também camuflava o torpor que vinha,
quando o vapor de sua língua, vibrava entre as minhas linhas esboçadas
e me afagava ofegante, sobre e exposta mais de oito almofadas...
pois me enrolo nas cortinas rasgadas da guerra de todo dia,
são os trapos que cobrem agora o meu corpo,
assim como há o luxo que me despe em outras horas,em outros templos...
lambo a memória de outros tempos
em que me espreguiçava entre tartarugas de mármores, relógios de sol
e moinhos de vento...
ouro na tua pele percorro,
onde sei que...
há mágico rei de um poema (re)velado à lâmpada...
ah, o dono dessa poesia luz...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

e por falar em saudade...

img: parke harrison


é saudade essa coisa que para relógios,
que em alguns dias é blue e em outras blues.
é saudade esse abraço vazio,
esse cio, esse ócio que aguarda passos vindos do futuro,
essa lágrima que cintila no escuro...
esse tatear impalpável, essa falta insustentável...
esse absurdo...



(inspirado em versos da poetamiga shala andirá)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

desempoeirando esperas

olhos pousam na espera do inesperado desenfreado, do inebriante desacorrentado.
o sono pesado, que desacorda os acordes de pesadelos de pelos eriçados, expulso de trás da cortina verde, na meia luz do quarto.
quero ver-te mais uma vez e verter versos (meu sagrado ofício), que nos libertam de pesados passados sacrifícios.
lembro ainda de salgadas lambidas nos olhos avistados longes do mar... eles refletiam ondas de marejar... mas eram apenas os meus, que refletidos nos teus, me davam essa impressão... apenas pela expressão, quem sabe pela ótica da ilusão.
dispersos os teus, atentos os meus, diversos olhares em nossa direção...
um pantomímico que oferecia flores de plástico, não lhe causou a mesma minha comoção.
me acomodo então, na espera da chegada eriçada... de peito aberto e desempoeirando as palavras de amor, guardadas nas janelas do tempo... esperando o merecido benefício...
hoje o amor me vaza por todos os orifícios...